Artigos indexados de 19 a 27 de setembro

Dose, limiar e fenótipo: três perguntas que a semana devolve ao plantão.

Qual esquema de corticoide no choque séptico — e por que a hidrocortisona isolada não se separou do placebo —, até onde dá para elevar o limiar do D-dímero antes de pedir a angiotomografia e se um biomarcador consegue dizer quem se beneficia do recrutamento na SDRA. Três perguntas com respostas de peso muito diferente — e é isso que importa saber antes do plantão.

Muda a práticaReforça a práticaGera hipóteseNão muda nada

Destaques da semana

Análise crítica completa.

Journal of Critical CareRevisão sistemática + metanálise em rede21 ECRs · n = 7.908Desfecho primário: 14 ECRs · n = 7.303Frequentista de efeitos aleatóriosCerteza moderada a muito baixa

Qual esquema de corticoide no choque séptico: mais hidrocortisona ou hidrocortisona com fludrocortisona?

Comparative efficacy and safety of hydrocortisone-based regimens in septic shock: A network meta-analysis

P
Adultos com choque séptico. Busca em PubMed, Embase e CENTRAL desde a origem até 1º de maio de 2025. PROSPERO CRD420251015672. 21 ECRs, 7.908 pacientes, idade média combinada de 63,3 anos.
I
Seis esquemas: placebo; hidrocortisona 200–299 mg/dia (H200); hidrocortisona ≥ 300 mg/dia (H300); e H200 associada a fludrocortisona de 50, 100 ou 200 µg/dia.
C
Placebo, além das comparações indiretas entre os esquemas dentro da rede.
O
Mortalidade em 28 dias — relatada por 14 dos 21 ensaios (7.303 pacientes). Desfecho centrado no paciente. Secundários: mortalidade hospitalar, tempo de UTI, superinfecção e hemorragia digestiva.

Hidrocortisona 200–299 mg/dia vs placebo · OR de mortalidade em 28 d

0,92

IC95% 0,81 a 1,04 · 8 ensaios diretos, I² = 0%
O esquema mais usado no mundo é neutro.

H200 + fludrocortisona 50 µg/dia vs placebo

0,78

IC95% 0,64 a 0,96 · direto 0,79 (0,64–0,97), 2 ensaios

Hidrocortisona ≥ 300 mg/dia vs placebo

0,53

IC95% 0,29 a 0,96 · direto 0,33 (0,12–0,93), 2 ensaios

As duas comparações que realmente interessam

H200 vs H300: OR 1,73 (0,96–3,12)
H200 vs H200 + fludro: OR 1,17 (0,92–1,48)
Nenhuma das duas alcançou significância.

Só os esquemas das pontas se separaram do placebo

Odds ratio de mortalidade em 28 dias contra placebo, na metanálise em rede (escala log). Em cinza, a hidrocortisona isolada na dose habitual — o esquema mais usado na prática, e o único que não se separou do placebo. "HC" é hidrocortisona.

0,3 0,4 0,5 0,7 1,0 1,2 ← favorece o corticoide favorece o placebo → Hidrocortisona 200–299 mg/dia0,92 (0,81–1,04) HC 200–299 mg + fludro 50 µg0,78 (0,64–0,96) Hidrocortisona ≥ 300 mg/dia0,53 (0,29–0,96) Hidrocortisona 200–299 mg/dia0,92 (0,81–1,04) HC 200–299 mg + fludro 50 µg0,78 (0,64–0,96) Hidrocortisona ≥ 300 mg/dia0,53 (0,29–0,96) 0,3 0,4 0,5 0,7 1,0 1,2 ← corticoide placebo →

Dados: Kwon S et al., J Crit Care 2026 (texto completo, Figs. 3-A e 4-A). Gráfico próprio.

Validade interna

  • Nenhuma comparação direta de mortalidade em 28 dias foi estatisticamente significativa — os próprios autores registram que, por isso, o índice de fragilidade não era aplicável. Tudo o que aparece como "significativo" vem da combinação de evidência direta e indireta dentro da rede.
  • O achado da dose alta repousa sobre cinco ensaios pequenos, unicêntricos, conduzidos entre 1998 e 2006 (a frase é dos autores). Uma única comparação direta entre H200 e H300 existe na literatura: Hyvernat 2016, com 122 pacientes.
  • Os esquemas com fludrocortisona 100 e 200 µg/dia vêm de um único ensaio (Walsham 2024). Estimativas de 0,42 e 0,41, com IC de 0,13 a 1,37 — exploratórias, e assim rotuladas no texto.
  • Inconsistência global e por nó (dois ciclos fechados) não foi detectada — todos os p ≥ 0,183 —, mas o poder para detectá-la é baixo: várias comparações têm um só ensaio direto.
  • Transitividade: os autores relatam variação substancial nas definições de sepse, nos limiares de vasopressor e no momento de iniciar o corticoide, com relato incompleto da gravidade basal. Concluem que "heterogeneidade clínica residual e violações potenciais da transitividade não podem ser excluídas".
  • Certeza pelo GRADE adaptado: de moderada a muito baixa, com rebaixamento dominado por indireção e imprecisão.

Segurança: o que os números sustentam

  • Apesar de o artigo concluir por risco aumentado de hemorragia digestiva entre os esquemas, nenhuma estimativa é significativa: H200 vs placebo OR 1,08 (0,64–1,81); H200 + fludro vs placebo 1,06 (0,72–1,54); H200 vs H200 + fludro 1,02 (0,55–1,88). O dado de H300 vem de um único ensaio e tem IC de 0,12 a 82,16 — não informa nada.
  • Só 8 dos 21 ensaios (1.400 pacientes) avaliaram hemorragia digestiva, e nenhum definiu o desfecho de forma específica.
  • Superinfecção: H300 vs placebo OR 2,19 (0,98–4,89) e H200 vs H300 OR 0,49 (0,22–1,08) — o sinal existe e aponta na direção esperada, mas os dois raspam o 1,0. Acrescentar fludrocortisona não piorou (H200 + fludro vs H200: 0,91; 0,64–1,30). Apenas um ensaio foi significativo, com índice de fragilidade 3.
  • Tempo de UTI: nenhuma diferença; a H300 pode até prolongar um pouco.

Como isso conversa com o que já sabíamos

O ADRENAL (Venkatesh 2018; 1.860 vs 1.853, hidrocortisona 200 mg/dia em infusão contínua por até 7 dias) e o APROCCHSS (Annane 2018; 627 vs 614, hidrocortisona 50 mg IV a cada 6 h com fludrocortisona 50 µg por via enteral por 7 dias) são os dois maiores ensaios da rede e explicam quase sozinhos o contraste: hidrocortisona isolada, neutra; com fludrocortisona, benefício. O resultado nulo da H200 também é coerente com a metanálise de dados individuais de Pirracchio, citada pelos autores. O que sobra de novo é o sinal da dose alta — e ele é, em grande parte, um eco de ensaios anteriores a 2007.

E no Brasil?

A hidrocortisona é barata e está em qualquer farmácia hospitalar. A fludrocortisona é o ponto de atrito: existe no país como acetato de fludrocortisona em comprimido de 0,1 mg, e a dose do APROCCHSS corresponde a meio comprimido por via enteral, uma vez ao dia, por 7 dias. Não é item de rotina em UTI, e vale conferir a disponibilidade no seu serviço antes de contar com ela. Subir a hidrocortisona para 300 mg/dia é tecnicamente trivial e tentador — e é exatamente o que este estudo não autoriza: a evidência que sustenta a dose alta tem vinte anos, vem de ensaios pequenos e carrega o sinal de superinfecção mais forte da análise.

Gera hipótese

A hidrocortisona isolada na dose habitual foi neutra (OR 0,92). Quem se separou do placebo foi a associação com fludrocortisona e, de forma frágil e datada, a dose ≥ 300 mg/dia. A associação segue sendo o esquema com melhor sustentação, e nada aqui justifica escalonar a dose.

Kwon S, Kwak SG, Hong HL. J Crit Care. 2026;97:155750DOI 10.1016/j.jcrc.2026.155750PMID 42784878
ChestRevisão sistemática + metanálise de proporções6 estudos · n = 12.194Estudos prospectivos de manejo diagnósticoSeguimento de 3 mesesQUADAS-2

Elevar o limiar do D-dímero para evitar a angiotomografia é seguro na suspeita de embolia pulmonar?

Safety of Age-Adjusted and Clinical Probability-Adjusted D-dimer Cut-offs in Suspected Pulmonary Embolism: A Systematic Review and Meta-Analysis

P
Pacientes com suspeita de embolia pulmonar (TEP) em estudos prospectivos de manejo diagnóstico com pelo menos 50 participantes. Busca em MEDLINE, Embase, Web of Science e Cochrane de 1º/01/1995 a 1º/01/2026; PROSPERO CRD420251067708. Seis estudos: ADJUST-PE, YEARS, PEGeD, MODIGLIANI (dois braços), PECAN e MODS, 12.194 pacientes, de atenção primária a enfermaria. Prevalência combinada de TEP de 9,5% (IC95% 6,3–14,1; I² 98%).
I
Estratégia adaptativa: limiar ajustado pela idade (idade × 10 ng/mL FEU acima de 50 anos) ou pela probabilidade clínica (YEARS, PEGeD e variantes), sempre acoplada a uma regra de predição.
C
Para a segurança, não há comparador: são proporções agrupadas, sem grupo paralelo com limiar fixo. Para a eficiência, quatro dos estudos relatam também quantos pacientes o limiar fixo de 500 ng/mL teria poupado na mesma coorte — aí sim existe comparação interna.
O
Falha diagnóstica em 3 meses: TVP proximal confirmada, TEP, ou morte relacionada ao TEP ou inexplicada, entre os pacientes em que o TEP foi excluído sem imagem. Desfecho centrado no paciente.

Estratégia adaptativa · falha em 3 meses entre os 5.698 pacientes em que a imagem foi evitada

0,12%

IC95% 0,06 a 0,26 · 7 eventos · I² = 0%
Por estratégia: 0,24% nas do tipo YEARS, 0,13% nas ajustadas pela idade

Mesma estratégia, dentro da "janela adaptativa" · D-dímero entre 500 ng/mL e o limiar ajustado

0,50%

IC95% 0,20 a 1,11 · 5 estudos, 1.468 pacientes · I² = 0%
São os mesmos 7 eventos da linha acima — todas as falhas caíram nessa faixa

Eficiência · quantos escapam da angiotomografia

60,8%

IC95% 49,2 a 71,2 · I² = 99,3%
Ganho sobre o limiar fixo, dentro da mesma coorte: +10 a +19 pontos percentuais

Robustez

Com transformação de Freeman–Tukey: falha global 0,03%, janela 0,23%, eficiência 60,5% — mesma conclusão

O que escapa, e com quanta incerteza

Taxa combinada de falha diagnóstica em 3 meses (TVP proximal, TEP, ou morte relacionada ao TEP ou inexplicada). As duas barras são da mesma estratégia adaptativa: o estudo não mede taxa de falha do limiar fixo. A de cima é entre os 5.698 pacientes em que a imagem foi evitada; a de baixo, entre os 1.468 desse grupo que estavam na janela adaptativa — D-dímero acima de 500 ng/mL e abaixo do limiar ajustado, ou seja, os que o limiar fixo teria mandado tomografar. Os 7 eventos são os mesmos nas duas: o denominador é que muda. A barra cinza não é um grupo-controle: é o limite superior do IC95% da própria estimativa, para mostrar a imprecisão.

Estimativa combinadaLimite superior do IC95% Falha global 0,1% 0,3% Falha na janela adaptativa 0,5% 1,1% EstimativaLimite sup. do IC95% Falha global 0,1% 0,3% Falha na janela adaptativa 0,5% 1,1%

Dados: Graziani M et al., Chest 2026 (texto completo, Tabela 2 e Fig. 2). Gráfico próprio.

E quanto se ganha em relação ao limiar fixo

Proporção de pacientes manejados sem angiotomografia, dentro de cada estudo, com a estratégia adaptativa e com o limiar fixo de 500 ng/mL. Esta é a única comparação interna que os estudos permitem — e vale para a eficiência, não para a segurança. MODIGLIANI e PECAN não relataram o dado do limiar fixo.

Estratégia adaptativaLimiar fixo de 500 ng/mL ADJUST-PE 34,7% 24,6% YEARS 47,6% 33,9% PEGeD 65,7% 48,1% MODS 68,4% 49,9% AdaptativaLimiar fixo ADJUST-PE 34,7% 24,6% YEARS 47,6% 33,9% PEGeD 65,7% 48,1% MODS 68,4% 49,9%

Dados: Graziani M et al., Chest 2026 (texto completo, Tabela 4). Gráfico próprio.

Validade interna

  • Não é ensaio randomizado: são proporções agrupadas de coortes de manejo, cada uma com o seu algoritmo. A pergunta respondida é "quantos escapam", não "escapam mais do que com o limiar fixo". Os autores são explícitos: nenhum ensaio randomizado jamais comparou estratégia adaptativa com limiar fixo, e eles duvidam que um seja viável, dado o número minúsculo de eventos.
  • Os intervalos são estreitos porque o evento é raríssimo, não porque há muitos estudos: são 6, e 7 eventos no total. Três estudos não tiveram nenhum.
  • Risco de viés pelo QUADAS-2: baixo na maioria dos domínios, com ressalvas pontuais em padrão de referência e em fluxo e tempo.
  • Pacientes perdidos de seguimento, que não seguiram a estratégia ou que anticoagularam por outro motivo foram excluídos da análise. Os autores reconhecem que isso subestima ligeiramente a taxa de falha e consideram a diferença desprezível — é uma escolha defensável, mas é uma escolha.
  • I² de 99,3% na eficiência: a proporção que escapa da imagem varia enormemente entre populações — de 34,7% no ADJUST-PE a 77,6% na atenção primária. O 60,8% não é transportável para o seu pronto-socorro; o ganho relativo ao limiar fixo é a leitura útil.

O que são, de fato, as 7 falhas

Primeiro, onde eles caíram: as sete falhas ocorreram todas dentro da janela adaptativa. Nenhum paciente que já seria liberado pelo limiar fixo de 500 teve evento — o risco adicional da estratégia está inteiramente concentrado nos pacientes que ela poupou da tomografia, e é por isso que a taxa sobe de 0,12% para 0,50% quando se olha só esse grupo. Olhar evento por evento muda o resto da impressão. Quatro das sete foram mortes relacionadas ao TEP ou inexplicadas, sem confirmação de autópsia — os autores questionam se podem mesmo ser contadas como TEP perdido. Das três restantes, uma foi um TEP não fatal 40 dias depois da apresentação (ADJUST-PE), uma um TEP não fatal aos 18 dias e uma uma TVP proximal provocada aos 49 dias (YEARS). Os próprios autores sugerem que a área reveja a definição de falha para uma janela de 30 dias, porque parte do que hoje se conta como "diagnóstico perdido" é provavelmente evento novo.

Traduzindo em pacientes

A falha de 0,12% é cerca de 1 evento a cada 830 pacientes liberados sem imagem pela estratégia adaptativa. Como todos os eventos caíram na janela, a leitura mais útil é a de dentro dela: entre os pacientes que a estratégia poupou da tomografia e o limiar fixo teria tomografado, 0,50% é cerca de 1 a cada 200. Do outro lado da balança: em cada 100 pacientes, de 10 a 19 a mais escapam da angiotomografia do que escapariam com o limiar fixo — contraste, radiação, tempo de pronto-socorro e achados incidentais evitados. A conta só fecha se a probabilidade clínica for de fato calculada, e registrada, antes de olhar o D-dímero.

E no Brasil?

O D-dímero está em quase todo laboratório, e evitar angiotomografia tem peso real onde o tomógrafo é disputado e o contraste é caro. A armadilha é a unidade: o limiar ajustado pela idade é idade × 10 ng/mL em unidades de fibrinogênio equivalente (FEU), e laboratórios que reportam em unidades de D-dímero (DDU) usam uma escala cerca de duas vezes menor. Conferir a unidade do laudo antes de aplicar a regra não é detalhe. A segunda armadilha é cultural: a estratégia pressupõe escore de probabilidade clínica aplicado e anotado. A terceira é de população — os estudos não conseguiram analisar idosos e pacientes com câncer separadamente (o único dado disponível é do ADJUST-PE: nenhuma falha entre 195 pacientes com 75 anos ou mais), e são justamente esses os grupos em que a prevalência é maior.

Reforça a prática

Com o limiar adaptativo, a falha em 3 meses foi de 0,12% entre todos os pacientes liberados sem imagem — cerca de 1 a cada 830. As sete falhas caíram todas na faixa que o limiar fixo mandaria tomografar; olhando só esses 1.468 pacientes, a taxa é de 0,50%, cerca de 1 a cada 200, e quatro dos sete eventos são mortes sem confirmação diagnóstica. O estudo não mede a taxa de falha do limiar fixo — o que ele mede contra o fixo é a eficiência, e aí a estratégia adaptativa poupa de 10 a 19 pacientes a mais por 100 dentro das mesmas coortes.

Graziani M, Akerboom B, Freund Y, et al. Chest. 2026 (pré-publicação)DOI 10.1016/j.chest.2026.09.030PMID 42790624
ChestAnálise secundária de ECRn = 259 de 400Comparação não randomizada · IPTWFrança · ensaio LIVE

Um biomarcador de lesão epitelial diz quem se beneficia do recrutamento na SDRA?

Epithelial injury and inflammatory phenotypes for personalized ventilation in ARDS: Secondary analysis of the LIVE trial

P
259 dos 400 pacientes com SDRA do ensaio LIVE (65%) que tinham sRAGE plasmático medido na inclusão. O LIVE randomizou entre uma ventilação personalizada pela morfologia pulmonar à tomografia e o cuidado padrão.
I
Estratégia de PEEP alta com manobra de recrutamento — o braço personalizado quando a morfologia era não focal.
C
Estratégia de PEEP baixa, reunindo o grupo-controle e os pacientes do braço personalizado com morfologia focal. Atenção: a exposição depende da morfologia, não do sorteio. A comparação deixa de ser randomizada, e é por isso que os autores construíram um DAG a priori, um escore de propensão logístico e ponderação por probabilidade inversa estabilizada (SMD < 0,1 após ponderação).
O
Mortalidade em 90 dias (primário) e trajetória do sRAGE até o dia 6. sRAGE basal dicotomizado em 2.440 pg/mL; fenótipos inflamatórios por modelo parcimonioso (IL-8, sTNFr-1, bicarbonato).

Todos os pacientes · recrutamento vs PEEP baixa · HR ponderado de mortalidade em 90 d

1,04

IC95% 0,58 a 1,86 · p = 0,91
No conjunto, nenhuma diferença.

sRAGE alto (≥ 2.440 pg/mL) · mesma comparação

0,41

IC95% 0,18 a 0,93 · p = 0,033

sRAGE baixo (< 2.440 pg/mL) · mesma comparação

3,27

IC95% 1,06 a 10,1 · p = 0,039
Interação com o sRAGE basal: p = 0,006

Fenótipo inflamatório

Sem heterogeneidade de efeito (interação p = 0,56)
Mas prognóstico: mortalidade em 90 d de 57% no hiperinflamatório vs 26% (p < 0,001)

Nada no conjunto, tudo nas pontas

Hazard ratio ponderado (IPTW) de mortalidade em 90 dias com a estratégia de PEEP alta e recrutamento, comparada à PEEP baixa: no conjunto da amostra e dentro de cada faixa de sRAGE basal (escala log). Interação p = 0,006.

0,25 0,5 1,0 2,0 4,0 8,0 ← favorece o recrutamento favorece a PEEP baixa → Todos os pacientes1,04 (0,58–1,86) sRAGE alto (≥ 2.440 pg/mL)0,41 (0,18–0,93) sRAGE baixo (< 2.440 pg/mL)3,27 (1,06–10,1) Todos os pacientes1,04 (0,58–1,86) sRAGE alto (≥ 2.440 pg/mL)0,41 (0,18–0,93) sRAGE baixo (< 2.440 pg/mL)3,27 (1,06–10,1) 0,25 0,5 1,0 2,0 4,0 8,0 ← recrutamento PEEP baixa →

Dados: Pensier J et al., Chest 2026 — texto completo e material suplementar. Gráfico próprio.

Validade interna

  • A comparação não é randomizada. Quem recebeu PEEP alta com recrutamento foi definido pela morfologia pulmonar à tomografia, não pelo sorteio; o comparador reúne o grupo-controle e os focais do braço personalizado. Os autores tratam isso com DAG a priori, escore de propensão e IPTW estabilizada, e o balanceamento depois da ponderação é bom (SMD < 0,1) — mas confundimento residual continua possível, e as estimativas valem dentro deste subconjunto com biomarcador, não como releitura por intenção de tratar do LIVE.
  • Os dois intervalos de confiança dos subgrupos são larguíssimos (0,18–0,93 e 1,06–10,1) e ambos raspam o 1,0. A precisão é baixa nos dois lados.
  • 259 dos 400 (65%) tinham amostra basal. A eTabela 1 compara esses pacientes com o restante da coorte: há diferenças pontuais, mas os grupos são razoavelmente comparáveis (informação confirmada pelo autor correspondente, comunicação pessoal por e-mail).
  • O limiar de 2.440 pg/mL foi obtido a partir dos próprios dados, por um procedimento pré-especificado que combina critérios de desempenho. Não é um corte externo validado, e os autores o tratam como exploratório.

O quanto o achado resiste a mexer no corte

  • Com 3.494 pg/mL, corte da literatura prévia: interação p = 0,002.
  • Com 1.188 pg/mL, outro corte prévio: interação p = 0,14 — mas restam apenas 46 pacientes na faixa baixa, o que esvazia o teste.
  • Com o sRAGE contínuo (log), sem corte nenhum: interação p = 0,047.
  • Sem a ponderação, comparando cada estratégia ao controle: interação p = 0,012.
  • Ou seja: o sinal não depende de um único ponto de corte feliz. Depende de uma amostra pequena, e a direção do efeito na faixa baixa é sustentada por pouquíssimos eventos.

A favor: a biologia fecha

A trajetória do biomarcador acompanha o desfecho. Entre os pacientes com sRAGE alto, a queda diária foi de −12,6% ao dia com PEEP alta e recrutamento, contra −4,3% com PEEP baixa (p < 0,001): mais recrutamento, menos lesão epitelial em curso. Entre os de sRAGE baixo, o padrão se inverte — −0,3% vs −5,3% (p = 0,038), como se a mesma manobra estivesse fazendo mal a um pulmão que não tinha o que recrutar. Coerência biológica não prova efeito, mas é o que distingue um subgrupo plausível de um subgrupo sorteado.

Já o fenótipo inflamatório não separou resposta ao tratamento (interação p = 0,56) e correlacionou-se pouco com o sRAGE (ρ = 0,15): são eixos diferentes do mesmo paciente. Vale registrar que 10% dos pacientes foram classificados por um classificador de aprendizado de máquina (AUC 0,90), e não por dosagem completa.

E no Brasil?

O sRAGE não é dosável na rotina de praticamente nenhuma UTI brasileira, e isso não vai mudar a curto prazo. O valor aqui é conceitual, e tem um gancho prático: no próprio LIVE, 24% dos pacientes (97 de 400) foram classificados erradamente quanto à morfologia pulmonar. Um marcador de lesão epitelial funcionaria menos como substituto da tomografia e mais como trava de segurança contra recrutar quem não deveria. À beira do leito, hoje, segue valendo a mecânica respiratória e a resposta individual à PEEP.

Gera hipótese

No conjunto, a estratégia de recrutamento não mudou a mortalidade (HR 1,04). O que o artigo levanta é que ela pode ajudar quem tem lesão epitelial marcada e prejudicar quem não tem — em uma comparação não randomizada, com poucos pacientes, mas com biologia coerente e robusta a vários cortes. Não há como usar isso à beira do leito hoje; há como desenhar o próximo ensaio.

Pensier J et al. Chest. 2026DOI 10.1016/j.chest.2026.08.054PMID 42777910

Como a gente lê nº 3 — I²: o que ele mede e o que ele não mede

Vale conhecer

Em poucas linhas, o que importa.

ResuscitationAnálise bayesiana de ECR · n = 6.082

PARAMEDIC-3: a releitura bayesiana do acesso intraósseo na parada extra-hospitalar

Análise secundária pré-planejada dos 6.082 randomizados no Reino Unido, com priors não informativos. A probabilidade posterior de a estratégia "intraósseo primeiro" ser pior que a "intravenoso primeiro" foi de 81,6% para a sobrevida em 30 dias e de 98,0% para o RCE na entrega hospitalar — mas só 13,4% de chance de um efeito moderado (OR < 0,75). Nenhum argumento para começar pelo intraósseo; ele segue sendo o plano B.

Reforça a práticaDOI
JAMAECR multicêntrico · 40 centros

ATTENTION LATE: tenecteplase antes da trombectomia na oclusão de basilar de 4,5 a 24 h

330 pacientes na China, NIHSS ≥ 10, desfecho cego. Independência funcional em 90 dias: 30% em ambos os grupos (razão de taxas ajustada 0,92; IC95% 0,67–1,25). Hemorragia intracraniana sintomática 5% vs 4%; mortalidade em 90 dias 40% vs 43%. Acrescentar o trombolítico não ajudou.

Não muda nadaDOI
ChestCoorte pareada por escore de propensão

Cristaloide balanceado antes da UTI na sepse

3.688 pacientes, 1.335 em cada grupo após o pareamento. O balanceado associou-se a menor mortalidade em 30 dias (OR ajustado 0,69; IC95% 0,56–0,83; 0,78 com ponderação IPTW), menos terapia renal substitutiva e mais dias livres de ventilação. É observacional: a escolha do fluido anda junto com o perfil do serviço.

Gera hipóteseDOI
ChestRegistro prospectivo multicêntrico

Lidocaína ou amiodarona na FV/TV sem pulso refratária intra-hospitalar

Do registro BASIC-IHCA (40 hospitais na China), 612 casos adjudicados de 32.545 paradas. Sobrevida à alta 20,1% com lidocaína vs 23,5% com amiodarona (OR ajustado 1,22; IC95% 0,63–2,37). Nenhuma diferença nos demais desfechos. Sustenta a diretriz, que já permite qualquer um dos dois.

Reforça a práticaDOI
Intensive Care MedECR fase 2 · duplo-cego

Ilofotase alfa não protege o rim na cirurgia cardíaca

244 randomizados, 204 analisados, todos com TFGe pré-operatória de 25–65. A razão de creatinina máxima em 5 dias foi 1,21 vs 1,27 no placebo (p = 0,31), e eventos renais maiores em 60 dias, 15,9% vs 15,4% (p = 0,87). Sem sinal de insegurança. Negativo e limpo.

Não muda nadaDOI
Critical CareECR duplo-cego · unicêntrico

Calorimetria indireta para guiar a nutrição no desmame da VM prolongada

211 pacientes ventilados há ≥ 21 dias, em hospital de reabilitação em Tel Aviv. Desmame bem-sucedido em 58% vs 50% (p = 0,33) e mortalidade em 1 ano de 48% vs 56% (p = 0,29): nada estatisticamente significativo. O sinal está na análise pós-hoc, em que menor diferença entre gasto medido e entregue acompanhou mais desmame. Publicado on-line em 28 de agosto e indexado nesta semana.

Não muda nadaDOI
Critical Care ScienceInquérito internacional multicêntrico

Como se desmama nas UTIs do Sul Global

738 respondentes de UTIs da América Latina (427), Ásia (278) e África (33). 74% relatam ter protocolo de desmame; o TRE é o método predominante, mas a técnica varia muito entre regiões. 20% ainda devolvem o paciente à VM por 1 hora depois de um TRE bem-sucedido. Retrato da prática, não evidência de efeito.

Não muda nadaDOI
J Crit CareObservacional prospectivo · n = 30

Dose de noradrenalina e reatividade microvascular no choque séptico

30 pacientes em VM, já com PAM ≥ 65 mmHg. A dose equivalente de noradrenalina correlacionou-se inversamente com a inclinação de recuperação da StO₂ no teste de oclusão vascular (rho = −0,728; p < 0,001, ajustado para múltiplas comparações). A ScvO₂ não acompanhou esses índices. Amostra pequena, achado coerente com a incoerência hemodinâmica.

Gera hipóteseDOI

Radar

Para acompanhar. Aqui entram editoriais, cartas e documentos cuja novidade da semana é o comentário — não o estudo original.

  • Br J Anaesth · Editorial

    Sangue total no pré-hospitalar do trauma: "quando dois ensaios concordam, o ônus da prova muda de lado". O editorial é desta semana; os ensaios comentados, TOWAR (44 bases aeromédicas na América do Norte, randomização por cluster) e SWiFT (10 serviços aeromédicos na Inglaterra, randomização individual), foram publicados antes. Os dois foram nulos: a 2 unidades, o sangue total não foi superior aos componentes, e nenhum sinalizou dano relevante. O autor argumenta que o caso operacional do sangue total — menos desperdício e plaquetas funcionantes — é menos sustentado do que parece, e que nenhum dos dois o comparou com ressuscitação guiada por concentrados de fatores. Editorial

  • Critical Care · Carta

    "Duas liberações, dois alvos fisiológicos": as implicações do X-COPD. O X-COPD (ECCO₂R para extubação precoce na DPOC exacerbada, interrompido por falta de financiamento) foi analisado na nossa edição nº 1. A novidade desta semana é o comentário, que separa a liberação da ventilação da liberação do suporte extracorpóreo como dois objetivos com alvos fisiológicos distintos. DOI

  • AJRCCM · Viewpoint

    A pressão arterial diastólica que a Surviving Sepsis Campaign 2026 não menciona. Sanchez-Escalante e Teboul argumentam que a PAM sozinha não distingue se a hipotensão vem de débito cardíaco baixo, de tônus arterial reduzido ou dos dois — e que a PAD, disponível em qualquer monitor, acrescenta essa informação sem competir com a PAM como alvo. O recorte que propõem: PAM < 65 mmHg com PAD < 50 mmHg e sinais de hipoperfusão sugere tônus vascular reduzido como contribuinte principal, situação em que iniciar noradrenalina mais cedo é fisiologicamente defensável; PAM < 65 com PAD preservada pede aumentar o débito, não vasoconstritor. Eles citam dados recentes em que iniciar noradrenalina em até 25 minutos se associou a melhor evolução apenas no grupo com PAD < 50 mmHg — e são explícitos em que esses dados não são randomizados, não estabelecem causalidade nem validam 50 mmHg como limiar universal. Também não recomendam noradrenalina com PAD baixa e PAM ≥ 65: aí sugerem o teste de PAM com o tempo de enchimento capilar como resposta. Vale lembrar que a PAD sofre influência da frequência cardíaca e da rigidez arterial, o que é a razão do índice de choque diastólico (FC/PAD). É opinião fundamentada, não evidência nova. DOI

  • AJRCCM · Carta

    Heterogeneidade de efeito da ECMO venovenosa na SDRA grave: análise secundária do EOLIA. Granton e colegas estimaram o efeito de tratamento individualizado nos 235 dos 249 pacientes do EOLIA com covariáveis completas, usando árvores de regressão bayesianas (BART) e, depois, uma árvore de classificação para procurar subgrupos. Todas as estimativas individuais apontaram a favor da ECMO — redução absoluta de risco de 5,7% a 2,8% na mortalidade em 60 dias —, mas todos os intervalos de credibilidade de 95% cruzaram o zero. A maior separação encontrada pela árvore foi entre imunossuprimidos em corticoide (RRA −0,053; ICr95% −0,235 a 0,131) e o restante (−0,039; −0,183 a 0,106): nada que sustente selecionar paciente. Causal forest, Bayesian causal forest e XGBoost deram o mesmo quadro; uma abordagem por risco basal sugeriu benefício absoluto maior em quem tem mais risco, que é o comportamento esperado de qualquer terapia eficaz. Os autores reconhecem que complacência e driving pressure ficaram de fora por dados faltantes, que a amostra é pequena e que a regularização do BART pode atenuar heterogeneidade real. Na prática: nenhum motivo para restringir a ECMO a subgrupos dentro dos critérios do EOLIA — e nenhum para prometer benefício individual. DOI

  • Resuscitation

    ILCOR atualiza como constrói suas "declarações de boa prática". Documento metodológico de 2026 sobre as recomendações que não se sustentam em evidência formal. Interessa a quem lê diretriz de parada. DOI

  • Resuscitation · Carta

    Neuroprognóstico multimodal depois da parada, seguindo as recomendações ERC/ESICM 2025. As recomendações de 2025 passaram a considerar neuroprognóstico em quem não desperta nem obedece a comandos em 72 h — critério mais amplo que o antigo, restrito à resposta motora ≤ 3 na escala de coma de Glasgow. A pergunta da carta é se o algoritmo perde desempenho ao incluir pacientes com resposta motora 4 ou 5. Avaliação de serviço retrospectiva em centro único do King's College (junho de 2024 a fevereiro de 2025), 72 pacientes, com TC de crânio, dois EEG, potenciais evocados somatossensitivos e enolase, e desfecho ruim definido por destino de alta (Rankin ≥ 4). No grupo de critério estendido o desfecho ruim foi bem menos frequente (41,2% vs 85,5%; p < 0,001), como esperado, e o desempenho não se deteriorou: especificidade 100% vs 87,5% (p = 0,444), sensibilidade 28,6% vs 48,9% (p = 0,096), acurácia balanceada 0,643 vs 0,682 (p = 0,226). O problema é o tamanho: são 17 pacientes no grupo estendido, e o IC95% da sensibilidade vai de 3,7% a 71%. Tranquiliza, mas não demonstra. DOI

  • Critical Care · Carta

    Vancomicina na terapia renal substitutiva: o limiar de toxicidade não se sustentou na validação externa. Crítica metodológica direta a um limiar de exposição amplamente citado. Acesso aberto. DOI

  • Critical Care · Carta

    Os critérios de elegibilidade dos ensaios de LRA associada à sepse excluem justamente quem tem mais risco renal. Um problema estrutural que ajuda a explicar por que tantos ensaios de nefroproteção são neutros. Acesso aberto. DOI

  • Critical Care Science · Carta científica

    Tempo de enchimento capilar prolongado e intolerância à nutrição enteral. Coorte prospectiva observacional unicêntrica com 104 adultos, com o TEC medido no início da dieta e a cada 12 h por 72 h, e "prolongado" definido como > 3 s. Só 8 pacientes (7,7%) tiveram intolerância — quatro vezes menos que o previsto —, e nesse grupo o TEC estava prolongado em 50% já no dia 0 (vs 13%; p = 0,023) e em 75% às 72 h (vs 18,8%; p = 0,002); a mortalidade hospitalar foi de 87,5% vs 34,4% (p = 0,005) e a AUROC, 0,82. Com 8 eventos, um único paciente reclassificado muda tudo, os avaliadores não eram cegos e a coorte tinha pouco choque. Continua o fio do TEC que abriu a edição nº 1 — agora perguntando se a perfusão periférica informa sobre a visceral —, mas como hipótese, não como marcador pronto. DOI

Nota de transparência

Esta edição foi preparada com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) para busca no PubMed, triagem e rascunho das análises, em conformidade com os princípios da Resolução CFM nº 2.454/2026. O material tem finalidade educacional e não substitui a leitura do artigo original nem o julgamento clínico individual. Figuras e tabelas dos artigos não são reproduzidas; os gráficos são elaborados a partir dos dados publicados.

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