Qual esquema de corticoide no choque séptico: mais hidrocortisona ou hidrocortisona com fludrocortisona?
Comparative efficacy and safety of hydrocortisone-based regimens in septic shock: A network meta-analysis
- P
- Adultos com choque séptico. Busca em PubMed, Embase e CENTRAL desde a origem até 1º de maio de 2025. PROSPERO CRD420251015672. 21 ECRs, 7.908 pacientes, idade média combinada de 63,3 anos.
- I
- Seis esquemas: placebo; hidrocortisona 200–299 mg/dia (H200); hidrocortisona ≥ 300 mg/dia (H300); e H200 associada a fludrocortisona de 50, 100 ou 200 µg/dia.
- C
- Placebo, além das comparações indiretas entre os esquemas dentro da rede.
- O
- Mortalidade em 28 dias — relatada por 14 dos 21 ensaios (7.303 pacientes). Desfecho centrado no paciente. Secundários: mortalidade hospitalar, tempo de UTI, superinfecção e hemorragia digestiva.
Hidrocortisona 200–299 mg/dia vs placebo · OR de mortalidade em 28 d
0,92
IC95% 0,81 a 1,04 · 8 ensaios diretos, I² = 0%
O esquema mais usado no mundo é neutro.
H200 + fludrocortisona 50 µg/dia vs placebo
0,78
IC95% 0,64 a 0,96 · direto 0,79 (0,64–0,97), 2 ensaios
Hidrocortisona ≥ 300 mg/dia vs placebo
0,53
IC95% 0,29 a 0,96 · direto 0,33 (0,12–0,93), 2 ensaios
As duas comparações que realmente interessam
H200 vs H300: OR 1,73 (0,96–3,12)
H200 vs H200 + fludro: OR 1,17 (0,92–1,48)
Nenhuma das duas alcançou significância.
Só os esquemas das pontas se separaram do placebo
Odds ratio de mortalidade em 28 dias contra placebo, na metanálise em rede (escala log). Em cinza, a hidrocortisona isolada na dose habitual — o esquema mais usado na prática, e o único que não se separou do placebo. "HC" é hidrocortisona.
Dados: Kwon S et al., J Crit Care 2026 (texto completo, Figs. 3-A e 4-A). Gráfico próprio.
Validade interna
- Nenhuma comparação direta de mortalidade em 28 dias foi estatisticamente significativa — os próprios autores registram que, por isso, o índice de fragilidade não era aplicável. Tudo o que aparece como "significativo" vem da combinação de evidência direta e indireta dentro da rede.
- O achado da dose alta repousa sobre cinco ensaios pequenos, unicêntricos, conduzidos entre 1998 e 2006 (a frase é dos autores). Uma única comparação direta entre H200 e H300 existe na literatura: Hyvernat 2016, com 122 pacientes.
- Os esquemas com fludrocortisona 100 e 200 µg/dia vêm de um único ensaio (Walsham 2024). Estimativas de 0,42 e 0,41, com IC de 0,13 a 1,37 — exploratórias, e assim rotuladas no texto.
- Inconsistência global e por nó (dois ciclos fechados) não foi detectada — todos os p ≥ 0,183 —, mas o poder para detectá-la é baixo: várias comparações têm um só ensaio direto.
- Transitividade: os autores relatam variação substancial nas definições de sepse, nos limiares de vasopressor e no momento de iniciar o corticoide, com relato incompleto da gravidade basal. Concluem que "heterogeneidade clínica residual e violações potenciais da transitividade não podem ser excluídas".
- Certeza pelo GRADE adaptado: de moderada a muito baixa, com rebaixamento dominado por indireção e imprecisão.
Segurança: o que os números sustentam
- Apesar de o artigo concluir por risco aumentado de hemorragia digestiva entre os esquemas, nenhuma estimativa é significativa: H200 vs placebo OR 1,08 (0,64–1,81); H200 + fludro vs placebo 1,06 (0,72–1,54); H200 vs H200 + fludro 1,02 (0,55–1,88). O dado de H300 vem de um único ensaio e tem IC de 0,12 a 82,16 — não informa nada.
- Só 8 dos 21 ensaios (1.400 pacientes) avaliaram hemorragia digestiva, e nenhum definiu o desfecho de forma específica.
- Superinfecção: H300 vs placebo OR 2,19 (0,98–4,89) e H200 vs H300 OR 0,49 (0,22–1,08) — o sinal existe e aponta na direção esperada, mas os dois raspam o 1,0. Acrescentar fludrocortisona não piorou (H200 + fludro vs H200: 0,91; 0,64–1,30). Apenas um ensaio foi significativo, com índice de fragilidade 3.
- Tempo de UTI: nenhuma diferença; a H300 pode até prolongar um pouco.
Como isso conversa com o que já sabíamos
O ADRENAL (Venkatesh 2018; 1.860 vs 1.853, hidrocortisona 200 mg/dia em infusão contínua por até 7 dias) e o APROCCHSS (Annane 2018; 627 vs 614, hidrocortisona 50 mg IV a cada 6 h com fludrocortisona 50 µg por via enteral por 7 dias) são os dois maiores ensaios da rede e explicam quase sozinhos o contraste: hidrocortisona isolada, neutra; com fludrocortisona, benefício. O resultado nulo da H200 também é coerente com a metanálise de dados individuais de Pirracchio, citada pelos autores. O que sobra de novo é o sinal da dose alta — e ele é, em grande parte, um eco de ensaios anteriores a 2007.
E no Brasil?
A hidrocortisona é barata e está em qualquer farmácia hospitalar. A fludrocortisona é o ponto de atrito: existe no país como acetato de fludrocortisona em comprimido de 0,1 mg, e a dose do APROCCHSS corresponde a meio comprimido por via enteral, uma vez ao dia, por 7 dias. Não é item de rotina em UTI, e vale conferir a disponibilidade no seu serviço antes de contar com ela. Subir a hidrocortisona para 300 mg/dia é tecnicamente trivial e tentador — e é exatamente o que este estudo não autoriza: a evidência que sustenta a dose alta tem vinte anos, vem de ensaios pequenos e carrega o sinal de superinfecção mais forte da análise.
A hidrocortisona isolada na dose habitual foi neutra (OR 0,92). Quem se separou do placebo foi a associação com fludrocortisona e, de forma frágil e datada, a dose ≥ 300 mg/dia. A associação segue sendo o esquema com melhor sustentação, e nada aqui justifica escalonar a dose.