Começar o choque séptico já com três vasopressores, em vez de escalonar um a um?
Early multimodal vasopressor strategy in septic shock: results of the TRICYCLE randomized controlled trial
- P
- Adultos com choque séptico pelos critérios Sepsis-3, já em pelo menos 0,15 µg/kg/min de noradrenalina para manter a PAM em 65 mmHg, com lactato acima de 2 mmol/L depois de reposição volêmica adequada (20–30 mL/kg em 3 horas). Um critério de inclusão merece destaque: índice cardíaco acima de 2,3 L/min/m², medido por ecocardiograma, análise de contorno de pulso ou cateter de artéria pulmonar. Ou seja, só entraram pacientes cujo débito cardíaco estava preservado e cuja hipotensão era, de fato, problema de tônus vascular. Três UTIs em Maribor (Eslovênia) e Zagreb (Croácia), de dezembro de 2023 a dezembro de 2025. 79 pacientes: 38 na intervenção, 41 no controle. Ficaram de fora, entre outros, quem tinha isquemia mesentérica atual ou prévia, fenômeno de Raynaud ou esclerose sistêmica, MELD acima de 30, sangramento ativo ou ECMO venoarterial.
- I
- Angiotensina II, vasopressina e noradrenalina juntas desde a inclusão, com titulação protocolada nas primeiras 72 horas.
- C
- Escalonamento clássico: noradrenalina primeiro, vasopressina acrescentada quando a dose sobe, outros vasopressores depois disso. Vale olhar o que de fato aconteceu no grupo-controle, porque é aí que mora metade da leitura: a vasopressina foi usada em 23 dos 41 pacientes (56,1%), e começada com uma dose mediana equivalente a 0,45 µg/kg/min de noradrenalina — tarde, portanto. A angiotensina II foi liberada como resgate e usada em 4 pacientes (9,8%).
- O
- Primário: a variação da concentração plasmática de renina em 72 horas. Não é desfecho centrado no paciente — é um marcador do eixo renina-angiotensina-aldosterona, que os autores escolheram porque níveis altos e em queda lenta vêm sendo associados a mortalidade em estudos prévios. Secundários pré-especificados: variação do lactato em 72 h e do SOFA entre o dia 1 e o dia 3. Exploratórios: terapia renal substitutiva, mortalidade na UTI e em 28 dias.
Queda da renina em 72 h · desfecho primário
−2,61%/h
vs −1,67%/h no controle · p = 0,015
Equivale a uma queda de 46,9% contra 33,2% em 24 horas
Variação do SOFA entre o dia 1 e o dia 3
−3vs 0
IQR −5,3 a −0,75 vs −3,5 a 2 · p = 0,018
Quem morreu antes do dia 3 recebeu SOFA 24
Taquiarritmias que exigiram tratamento ou cardioversão
15,6% vs 68,6%
p < 0,01 · OR ajustado 0,07 (IC95% 0,02 a 0,26)
Dado disponível para 32 de 38 e 35 de 41 pacientes
Mortalidade · desfechos exploratórios
Na UTI: 26,3% vs 41,5% · RR 0,635 (IC95% 0,33 a 1,21)
Em 28 dias: 36,8% vs 46,3% · RR 0,795 (0,47 a 1,35)
O ensaio não foi dimensionado para mortalidade.
A renina e o lactato caíram mais rápido — e o ponto de partida não era o mesmo
Velocidade de queda da renina e do lactato nas primeiras 72 horas, em percentual por hora, estimada por modelo misto com o tempo como variável contínua. Quanto maior a barra, mais rápida a queda. Leia junto com um dado da tabela de linha de base: a renina mediana no início era de 203,6 mU/L no grupo multimodal e de 66,7 mU/L no controle — mais de três vezes maior. Como o desfecho é a velocidade proporcional de queda, e quem parte de valores muito altos tende a cair proporcionalmente mais rápido, parte dessa diferença pode vir do ponto de partida, e não do tratamento. O modelo foi ajustado para idade, sexo e taxa de filtração glomerular basal — mas não para a renina basal.
Dados: Kalamar Ž et al., Crit Care 2026 (Tabelas 1 e 2). Gráfico próprio.
Nos desfechos que importam ao paciente, nada se separou
Risco relativo dos desfechos exploratórios, em escala logarítmica. Os três intervalos de confiança atravessam o 1,0 com folga. Isso era esperado: com 79 pacientes, o ensaio não foi dimensionado para medir mortalidade — foi dimensionado para medir a variação da renina. Um intervalo que vai de 0,33 a 1,21 na mortalidade da UTI é compatível com uma redução de dois terços e também com um aumento de um quinto. O gráfico está aqui para mostrar a largura da incerteza, não para sugerir tendência.
Dados: Kalamar Ž et al., Crit Care 2026 (Tabela 2). Gráfico próprio.
Validade interna · o que mais pesa
- O desfecho primário é um hormônio, não um paciente. A renina é um marcador: ela sobe quando a perfusão renal cai e quando o eixo renina-angiotensina está desregulado, e os autores citam estudos em que a renina prediz desfecho melhor que o lactato. Dentro do próprio ensaio, uma queda 1 ponto percentual por hora mais lenta associou-se a mais mortalidade na UTI (OR 1,41; IC95% 1,13 a 1,75) e em 28 dias (OR 1,46; 1,18 a 1,82). Isso torna a renina um marcador plausível — mas marcador não é desfecho, e associação dentro de um ensaio não é efeito de tratamento.
- O grupo da intervenção começou com renina três vezes maior. Mediana de 203,6 mU/L contra 66,7 mU/L no controle; o lactato também era mais alto (4,4 vs 3,5 mmol/L) e o SOFA, um ponto acima. Com 79 pacientes, a randomização simplesmente não garante equilíbrio. Isso importa muito aqui, porque o desfecho é a velocidade proporcional de queda: quem parte de um valor muito alto tende a cair proporcionalmente mais rápido, sem que nenhum tratamento tenha feito diferença. O modelo foi ajustado para idade, sexo e filtração glomerular basal — não para a renina basal.
- O resultado primário não resiste a uma das análises de sensibilidade do próprio artigo. Os autores repetiram o modelo misto permitindo que cada paciente tivesse a sua própria inclinação ao longo do tempo, e não apenas o seu próprio ponto de partida. As inclinações continuaram parecidas em tamanho e direção, mas a diferença entre os grupos deixou de ser estatisticamente significativa. Está escrito no artigo, e é o achado mais importante para quem lê criticamente: o p = 0,015 depende de uma escolha de modelagem, não de um efeito que apareça de qualquer ângulo.
- Boa parte dos valores iniciais está no teto do exame. O ensaio da renina mede até 500 mU/L, e o intervalo interquartil do grupo intervenção vai até exatamente 500 — ou seja, vários pacientes estavam acima do limite e foram registrados como "500". Aqui os autores fizeram o certo: repetiram a análise tratando esses valores como censurados à direita, e o resultado se manteve.
- Poder. Os 80 pacientes planejados foram calculados para uma comparação simples de renina entre grupos. Os próprios autores registram que esse cálculo não avaliou o poder do modelo misto que acabaram usando — e que nenhum desfecho clínico tinha chance de ser conclusivo.
O número mais chamativo é também o mais frágil
Taquiarritmia em 15,6% contra 68,6%, com razão de chances ajustada de 0,07, é a diferença mais impressionante do ensaio — e vale desconfiar dela por quatro motivos somados.
Primeiro: o estudo é simples-cego. O paciente não sabia o que recebia; a equipe sabia. Para renina e lactato, que saem do laboratório, isso quase não importa. Para "arritmia que exigiu tratamento farmacológico ou cardioversão", importa muito, porque quem decide tratar é a mesma equipe que sabe em que braço o paciente está.
Segundo: o dado não existe para todo mundo. São 32 dos 38 pacientes da intervenção e 35 dos 41 do controle — e os ausentes não são distribuídos ao acaso por construção.
Terceiro: 68,6% é uma incidência altíssima de taquiarritmia tratada para um grupo-controle de choque séptico. Um número fora do esperado costuma dizer tanto sobre como foi medido quanto sobre o que aconteceu.
Quarto: o ajuste feito foi pós-hoc, para fibrilação atrial prévia e uso de betabloqueador.
Nada disso significa que o achado seja falso. O mecanismo é plausível e conhecido: menos catecolamina circulante, menos arritmia — e o grupo multimodal de fato reduziu a dose equivalente de noradrenalina mais rápido nas primeiras 24 horas. É exatamente o tipo de sinal que justifica o ensaio maior que os autores pedem. Só não é, ainda, um motivo para mudar conduta.
O efeito poupador de catecolamina aparece — e depois some
Aqui está o detalhe que organiza toda a leitura do efeito poupador de catecolamina. Ao longo das 72 horas inteiras, a dose equivalente de noradrenalina caiu na mesma velocidade nos dois grupos: −5,41%/h na intervenção e −5,19%/h no controle, p = 0,47. A diferença existe apenas nas primeiras 24 horas, e aí é grande: −6,87%/h contra −3,03%/h, p < 0,0004.
Duas ressalvas. A primeira: essa análise das 24 horas não era pré-especificada — os autores a declaram como adicional. A segunda: o resultado é coerente com o desenho, e não necessariamente com um efeito biológico. No grupo-controle, a vasopressina só foi iniciada com dose mediana equivalente a 0,45 µg/kg/min de noradrenalina, e menos da metade recebeu angiotensina II em algum momento. É esperado que o grupo que recebe três agentes de uma vez desça mais rápido a noradrenalina no primeiro dia. A pergunta que fica é se "descer a noradrenalina mais rápido no primeiro dia" vale alguma coisa quando, em três dias, as duas curvas se encontram.
Na mesma linha, a filtração glomerular melhorou mais no grupo multimodal (+19,2 contra +8,2 mL/min/1,73 m²), mas sem significância (p = 0,14), e a necessidade de diálise foi praticamente igual.
E no Brasil?
Aqui a conversa se divide em duas partes, e só uma delas é acionável.
A parte que não é. A angiotensina II não faz parte do arsenal usual das UTIs brasileiras. Antes de qualquer leitura prática, vale confirmar registro e disponibilidade no país. Sem ela, a estratégia testada no TRICYCLE não existe como foi testada.
A parte que é. O grupo-controle do TRICYCLE só começou vasopressina com uma dose de noradrenalina equivalente a 0,45 µg/kg/min, e em pouco mais da metade dos pacientes. Isso não é uma excentricidade eslovena — é mais ou menos o que se vê na prática em muitos serviços, inclusive aqui. A vasopressina está disponível no Brasil, é barata perto de uma internação prolongada, e antecipá-la é uma decisão que não depende de nenhuma droga nova. O que o TRICYCLE não permite é saber quanto do efeito veio da angiotensina II e quanto veio apenas de usar vasopressina mais cedo — o desenho não separa as duas coisas.
E há um terceiro recado, mais barato que qualquer um dos dois: o critério de inclusão exigia índice cardíaco acima de 2,3 L/min/m². A pergunta que organiza toda a estratégia — este paciente está hipotenso por falta de débito ou por falta de tônus? — se responde com o eco à beira do leito na sua UTI, antes de decidir qual droga acrescentar.
A ideia é fisiologicamente sólida e o sinal é coerente: renina e lactato caem mais rápido, o SOFA melhora mais, há menos taquiarritmia. Mas o desfecho primário é um hormônio, o grupo da intervenção partia de uma renina três vezes maior, e o próprio artigo mostra que o resultado primário deixa de ser significativo quando o modelo é ajustado de outra forma. É o que um ensaio de fase 2 deve entregar — motivo para fazer o ensaio grande — e não mais que isso.