Guiar a hemodinâmica da cirurgia pelo índice cardíaco do próprio paciente reduz complicações?
Individualized Cardiac Index-Guided Hemodynamic Therapy in High-Risk Patients Undergoing Elective Major Abdominal Surgery: The PELICAN Randomized Clinical Trial
- P
- Adultos de 45 anos ou mais, operados de cirurgia abdominal eletiva de grande porte sobre órgãos viscerais, sob anestesia geral, com duração esperada de 90 minutos ou mais e pelo menos um critério de alto risco, em 12 centros universitários da Áustria, Chéquia, Dinamarca, Alemanha e Espanha, entre 8 de outubro de 2023 e 25 de outubro de 2025. De 3.782 triados, 1.128 foram incluídos, 1.111 randomizados e 1.095 analisados (549 vs 546). Mediana de 67 anos (IIQ 59–74); 49,4% mulheres; 57% ASA III; cerca de 80% com câncer de órgão sólido. Último seguimento em 15 de janeiro de 2026.
- I
- Terapia hemodinâmica individualizada (n = 549): manter o índice cardíaco intraoperatório pelo menos igual ao índice cardíaco de repouso do próprio paciente, medido antes da operação por bioimpedância de reatância durante 5 minutos, acordado e em decúbito dorsal. O algoritmo usava cristaloide balanceado a 6 mL/kg/h, bólus adicionais de 500 mL e dobutamina.
- C
- Terapia hemodinâmica de rotina (n = 546), a critério do anestesiologista, com o mesmo monitor instalado mas com o índice cardíaco cegado para a equipe. Nos dois grupos o alvo de pressão arterial média era acima de 65 mmHg.
- O
- Composto de lesão renal aguda, lesão miocárdica aguda, complicação infecciosa grave, parada cardíaca não fatal ou morte nos primeiros 7 dias de pós-operatório. Desfecho composto, de componentes muito desiguais.
Desfecho composto em 7 dias · diferença
−2,6pontos
44,3% (243/549) com alvo individualizado
46,9% (256/546) com a rotina
Diferença IC95% −8,5 a 3,3 · RR 0,94 (IC95,1% 0,83 a 1,08) · P = 0,38
Componentes do composto em 7 dias
0diferenças
Lesão miocárdica 29,8% vs 31,2% · RR 0,95 (0,79–1,14)
Infecção grave 21,1% vs 21,1% · RR 1,00 (0,80–1,26)
Lesão renal 9,6% vs 13,0% · RR 0,74 (0,53–1,03)
Parada não fatal 0,2% vs 0,5% · morte 0,5% vs 0,5%
Mortalidade em 90 dias · o achado desconfortável
2,06RR
5,7% (31/541) com alvo individualizado
2,8% (15/540) com a rotina
Diferença +3,0 pontos (0,6 a 5,4) · IC95% do RR 1,13 a 3,78
Secundário, sem correção para testes múltiplos.
A ideia por trás
Terapia hemodinâmica guiada por metas é uma família de estratégias que troca a condução intraoperatória "pelo olho clínico e pela pressão" por um alvo numérico de fluxo — débito ou índice cardíaco — perseguido com volume, vasopressor e inotrópico. O problema histórico dessas estratégias é o alvo: usar um número populacional, igual para todos, trata um paciente de 80 anos com reserva cardíaca pequena como se ele devesse chegar ao fluxo de um adulto jovem.
O PELICAN testa a resposta mais elegante a essa objeção, e os próprios autores explicam por que escolheram esse alvo: o índice cardíaco de repouso varia muito entre pacientes que chegam para cirurgia eletiva, e manter o valor de repouso deveria bastar para a perfusão durante uma anestesia geral, em que o gasto energético é menor do que o de repouso acordado. A pergunta deixa de ser "qual é o fluxo certo?" e passa a ser "este paciente está com o fluxo que tinha ontem?".
A intervenção funcionou como intervenção
Antes de interpretar um resultado negativo, é preciso saber se a conduta mudou de fato — e aqui mudou, muito. Dobutamina foi usada em 351 de 548 (64,1%) no braço individualizado contra 3 de 546 (0,5%) na rotina. O volume total infundido foi de 3.500 mL (IIQ 2.369–5.450) contra 2.838 mL (1.696–4.130). O índice cardíaco médio intraoperatório ficou em 3,1 L/min/m² (2,6–3,6) contra 2,7 (2,2–3,1), e o tempo em que o índice ficou no alvo foi de 62% contra 23% da cirurgia.
Isso é separação de sobra. Um ensaio neutro com essa separação não está dizendo "não conseguimos aplicar a estratégia": está dizendo que a estratégia foi aplicada e não entregou. Vale notar o que veio junto: menos noradrenalina no braço individualizado (mediana de 1,44 contra 2,14 mg) e frequência cardíaca cerca de 11% mais alta — o fluxo subiu em boa parte por cronotropismo e inotropismo, não só por volume.
O composto é o ponto fraco
Quase metade dos pacientes teve o desfecho primário, e a decomposição mostra exatamente por quê: lesão miocárdica aguda, definida por troponina, ocorreu em cerca de 30%, e complicação infecciosa grave em 21%. Lesão renal apareceu em 9,6% e 13,0%. Parada cardíaca não fatal e morte, que são o que de fato importa, ocorreram em 0,5% ou menos — somadas, menos de 1% dos pacientes.
Ou seja: o número de 44,3% contra 46,9% é, em larguíssima maioria, uma contagem de alterações laboratoriais. Isso tem duas consequências opostas, e as duas valem aqui. Dilui, porque um efeito real sobre a mortalidade ficaria invisível dentro desse composto. E protege de falso positivo, porque nenhum componente se moveu isoladamente. O que mais se aproximou de um sinal foi a lesão renal, a favor do braço individualizado (RR 0,74; 0,53 a 1,03) — compatível com acaso, e o único componente em que o fluxo maior poderia ajudar.
O que o composto está contando
Cada componente do desfecho primário, em porcentagem de pacientes, nos 7 primeiros dias. O composto soma os cinco. Lesão miocárdica é definida por troponina e lesão renal por creatinina; morte e parada cardíaca ocorreram em 0,5% ou menos.
Dados: Saugel B et al., JAMA 2026 (Tabela 3). Gráfico próprio.
A mortalidade em 90 dias é o achado que incomoda
Em 7 dias morreram 3 pacientes em cada braço. Em 30 dias, 16 de 547 (2,9%) contra 8 de 545 (1,5%). Em 90 dias, 31 de 541 (5,7%) contra 15 de 540 (2,8%) — diferença de 3,0 pontos percentuais (IC95% 0,6 a 5,4), risco relativo de 2,06 (1,13 a 3,78). O intervalo não cruza o 1.
Os próprios autores tratam o achado com cautela explícita, e com razão: é um entre muitos desfechos secundários, nenhum deles ajustado para testes múltiplos, e eles escrevem que pode representar achado de acaso ou efeito adverso da intervenção. Essa é a leitura honesta — mas ela não autoriza ignorar o número. A direção é a mesma do composto de 90 dias (6,5% contra 4,6%; RR 1,40; 0,85 a 2,30) e da mortalidade em 30 dias, e é a mesma direção do ensaio iPEGASUS, citado na própria discussão: 364 pacientes, composto de complicações em 28 dias de 55% contra 46%, razão de chances de 1,87 (1,03 a 3,39).
O que a análise não explica
Se a intervenção matou mais em 90 dias, por qual caminho? O ensaio não oferece um. Os desfechos de 30 dias — necessidade de terapia renal substitutiva, infarto, parada cardíaca, readmissão não planejada — não diferiram. O tempo de UTI foi idêntico (mediana de 1 dia nos dois braços) e o de internação quase igual (8 contra 9 dias). Não há um mecanismo visível nos dados publicados.
Vale lembrar o que a intervenção envolve: dobutamina em dois terços dos pacientes, mais volume e frequência cardíaca mais alta durante uma cirurgia de grande porte, numa população de 67 anos de idade mediana, 57% ASA III e quase toda oncológica. A literatura anterior já havia registrado a preocupação de que maximizar o índice cardíaco pode levar a sobrecarga de volume e a eventos cardíacos — é exatamente o argumento que os autores usam para defender o alvo individualizado como mais seguro do que o alvo maximizado.
Validade interna
O desenho resolve bem o problema que mais atormenta ensaios de monitorização: o grupo-controle também recebeu o monitor, com o valor cegado. Isso separa o efeito de perseguir o alvo do efeito de ter um número na tela. A amostra foi calculada para 1.014 pacientes (507 por grupo), com 90% de poder para detectar redução absoluta de 10 pontos (de 45% para 35%); recrutaram-se 1.111.
O intervalo publicado é de 95,1%, e não de 95%, e a razão está no desenho. O ensaio usou desenho grupo-sequencial com função de gasto de alfa de O'Brien-Fleming e uma análise interina com metade dos pacientes, concluída em 30 de junho de 2025: o composto ocorreu em 119 de 283 (42,0%) no braço individualizado contra 138 de 281 (49,1%) na rotina, com P unilateral de 0,046 — não cruzou o limiar de interrupção, e o ensaio seguiu. O alfa que sobrou para a análise final foi 0,049, de onde sai o 95,1%.
Dois registros de método, sem alarde: a análise por protocolo (1.078 pacientes) deu praticamente o mesmo (44,2% contra 46,9%; RR 0,94; 0,83 a 1,07), e o modelo misto ajustado por centro também (razão de chances 0,89; 0,70 a 1,14; P = 0,37). Nenhum subgrupo pré-especificado mostrou benefício. O plano de análise estatística, porém, só foi finalizado em 20 de março de 2026, depois do fim do recrutamento e da análise interina. Como o resultado não muda entre as análises, nada depende disso — mas, pelo mesmo critério que esta newsletter aplicou ao ICRAKI e ao VASSPR, a cronologia merece registro.
A única coisa que se moveu foi a mortalidade — e no sentido errado
Porcentagem de pacientes mortos em cada janela; "individualizado" é o braço do índice cardíaco individualizado. Em 90 dias, 31 de 541 contra 15 de 540: diferença de 3,0 pontos (IC95% 0,6 a 5,4), risco relativo 2,06 (1,13 a 3,78). É um entre muitos desfechos secundários, sem correção para testes múltiplos.
Dados: Saugel B et al., JAMA 2026 (Tabela 3). Gráfico próprio.
O que os autores reconhecem
A lista de limitações é honesta e três itens dela importam. Não foram medidos conteúdo arterial de oxigênio nem oferta de oxigênio, de modo que a premissa da estratégia — mais fluxo, mais oferta, melhor perfusão — não foi verificada em nenhum ponto da cadeia. A bioimpedância de reatância não é método de referência clínico, e a intervenção se apoiou mais na consistência dentro do mesmo paciente do que na exatidão absoluta do número. E o foco nos 7 primeiros dias, escolhido para reduzir confusão com eventos tardios não ligados à cirurgia, pode ter deixado de fora complicações que só aparecem depois.
Os autores acrescentam a explicação fisiológica mais provável para o nulo: aumentar o índice cardíaco não aumenta necessariamente a oferta de oxigênio, porque infundir volume dilui o conteúdo de hemoglobina; e oferecer mais oxigênio só melhora a oxigenação tecidual quando o consumo está dependente da oferta — o que a anestesia geral, a ventilação mecânica e a cirurgia minimamente invasiva modernas tornam improvável.
Quem pagou, e por que isso pesa a favor
O ensaio foi conduzido por investigadores e financiado pela Baxter, com declaração de que a empresa não participou do desenho, da condução, da análise nem da decisão de publicar. O autor principal declara concessões e honorários de uma longa lista de fabricantes de monitorização hemodinâmica, incluindo Edwards Lifesciences, Baxter, GE Healthcare, Masimo e Philips.
Vale dizer com clareza o que esse conjunto significa: um resultado negativo — com sinal de dano, ainda por cima —, saído de um ensaio financiado pela indústria do setor e assinado por quem tem vínculos com ela, é mais digno de confiança, não menos. O viés esperado nessa configuração empurraria para o lado contrário.
E no Brasil?
A estratégia depende de monitorização contínua de débito cardíaco no centro cirúrgico, que não é rotina na maior parte dos hospitais do SUS e tem custo relevante de descartáveis mesmo na saúde suplementar. O resultado, para quem não tem o equipamento, é tranquilizador: não há aqui argumento para comprá-lo com essa finalidade.
Para quem já tem, o recado não é apenas "não entregou benefício": é "não entregou benefício e morreram mais pacientes em 90 dias, sem que se saiba por quê". Usar o monitor para entender um paciente instável continua razoável. Perseguir o índice cardíaco de repouso com dobutamina em dois terços dos operados, não — e esse é o recado prático da semana.
O detalhe que decide
O selo é decidido pelo desfecho composto. Com 45% de eventos, o primário é quase inteiramente troponina e creatinina, e por isso não consegue falar de mortalidade — enquanto o desfecho que fala, a morte em 90 dias, aparece dobrada num secundário sem correção para multiplicidade. O ensaio é firme no que mede e frágil no que mais importaria medir. É o conceito do "Como a gente lê" nº 9 (módulo M5, desfechos em UTI).
Mirar o índice cardíaco de repouso do próprio paciente não reduziu complicações em 7 dias — e morreram mais pacientes em 90 dias. Nada aqui recomenda a estratégia; há motivo para desconfiar dela.