Como a gente lê um estudo
NNT: o número que diz o tamanho do que você ganha
"Reduziu a mortalidade em 10%" pode significar um paciente salvo a cada 25 tratados — ou a cada 250. O risco relativo não distingue os dois casos. O NNT distingue.
A conta
O número necessário para tratar responde a uma pergunta direta: quantos pacientes preciso tratar para evitar um desfecho ruim a mais? A conta tem dois passos.
Primeiro se calcula a redução absoluta de risco: a mortalidade no grupo controle menos a mortalidade no grupo tratado. Se cai de 40% para 36%, a diferença absoluta é de 4 pontos percentuais, ou 0,04.
Depois se inverte: NNT = 1 ÷ 0,04 = 25. A cada 25 pacientes tratados, um a menos morre. Os outros 24 não se beneficiam — alguns porque iam morrer de qualquer jeito, outros porque iam sobreviver de qualquer jeito.
Por que o risco relativo engana
Uma redução relativa de 10% soa igual em qualquer contexto. Não é. O mesmo RR de 0,90 produz NNTs completamente diferentes conforme o risco de base da população.
A mesma redução de 10%, em dois cenários
Quanto menor o risco de base, mais gente é preciso tratar para o mesmo ganho.
Exemplo hipotético, construído para a conta. Gráfico próprio.
É por isso que um tratamento pode ser excelente na UTI e irrelevante na enfermaria, sem que nenhum número do artigo mude. E é por isso que transportar o RR de um ensaio feito em população grave para a sua população menos grave costuma produzir uma expectativa inflada de benefício.
O NNT tem irmão gêmeo
O mesmo cálculo aplicado a um desfecho ruim dá o NNH — número necessário para causar dano. Um tratamento com NNT 25 para mortalidade e NNH 10 para sangramento grave é uma conversa bem diferente de um com NNT 25 e NNH 500. Artigo que reporta só o NNT está contando metade da história.
Como interpretar na prática
- NNT sem horizonte de tempo não quer dizer nada. "NNT 25" em 28 dias e "NNT 25" em 5 anos são coisas muito diferentes. O período tem que vir junto.
- Confira o risco de base do ensaio. Se a mortalidade do grupo controle for muito diferente da que você vê na sua unidade, o NNT publicado não se transfere. Recalcule com o seu risco: NNT = 1 ÷ (seu risco × redução relativa).
- NNT também tem intervalo de confiança. Raramente é publicado, mas existe. Quando a diferença absoluta é imprecisa, o NNT vira uma faixa larga — e, se o intervalo da diferença cruza o zero, o NNT deixa de ter interpretação simples.
- Compare NNT com NNH. Benefício e dano na mesma escala é a única comparação que faz sentido à beira do leito.
- Desconfie de NNT calculado sobre desfecho composto. Se o composto junta morte com internação prolongada, o "um a menos" pode ser só o componente mais leve.
Onde isso apareceu na newsletter
Edição nº 1 · 24 de setembro de 2026
Perfusão periférica no choque distributivo — a avaliação GRADE estimou cerca de 42 óbitos a menos por 1.000 pacientes (de 78 a menos a 3 a mais), o que corresponde a um NNT pontual em torno de 24. Repare que o intervalo atravessa o nulo: o NNT pontual, isolado, esconde isso. Ler a análise
Reabilitação multicomponente em pacientes com 80 anos ou mais — desmame de 45,3% contra 12,0%, diferença absoluta de cerca de 33 pontos, NNT aproximadamente 3. Um número impressionante que precisa ser lido junto com o desenho: centro único, população muito selecionada. Ler a análise
Os NNT desta edição foram calculados pelo editor a partir dos dados publicados.
Este texto foi preparado com apoio de inteligência artificial para redação e checagem, nos termos da Resolução CFM nº 2.454/2026, e revisado integralmente pelo editor responsável, que responde pelo conteúdo. Os exemplos numéricos genéricos são hipotéticos, construídos para ilustrar o cálculo. Finalidade educacional; não substitui a leitura dos artigos originais nem o julgamento clínico individual. O editor declara não possuir conflitos de interesse.