Começar a terapia de substituição renal por hemodiálise intermitente ou por método contínuo?
Intermittent or Continuous Renal-Replacement Therapy in Acute Kidney Injury — the ICRAKI trial
A pergunta é das mais frequentes e das menos respondidas da terapia intensiva: o paciente grave tem indicação de diálise, e a escolha do método — sessões intermitentes de algumas horas ou um circuito contínuo rodando o dia inteiro — costuma depender de quem está de plantão, de qual máquina está livre e de qual serviço de nefrologia atende. O KDIGO sugere preferir o método contínuo no paciente hemodinamicamente instável, com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade. O ICRAKI é o maior ensaio contemporâneo a testar isso de frente, e foi desenhado como ensaio de não inferioridade: a hipótese dos autores era que a hemodiálise intermitente, mais barata e mais disponível, não fosse pior. Convém guardar a estrutura dessa pergunta, porque ela explica quase tudo o que vem depois — um ensaio de não inferioridade não pergunta “qual é melhor”, e sim “o mais simples é ruim o suficiente para eu descartá-lo?”.
- P
- Adultos internados em UTI com lesão renal aguda e indicação reconhecida de terapia de substituição renal, recebendo ou tendo recebido ventilação mecânica invasiva, catecolamina, ou ambas, no mesmo episódio. 42 UTIs francesas, 38 das quais incluíram pacientes, de outubro de 2023 a julho de 2025. 1.268 avaliados, 554 randomizados. Vale reter o perfil, porque ele define a quem o resultado se aplica: SOFA mediano 12, cerca de 45% em choque séptico, aproximadamente 84% em ventilação invasiva no dia do sorteio, idade média 64,6 anos, mortalidade de 53% a 63%. As indicações mais frequentes foram oligoanúria por mais de três dias (cerca de 40%), ureia acima de 40 mmol/L (cerca de 37%) e acidose (cerca de 36%) — é população de indicação clássica, não de início precoce. Excluídos os casos em que uma das modalidades seria preferível por si (lesão cerebral e outras causas de hipertensão intracraniana, intoxicação dialisável), doença renal crônica com filtração estimada abaixo de 20, moribundos, e beneficiários da aide médicale d'État e pessoas sob medida de proteção legal.
- I
- Hemodiálise intermitente como método inicial, exclusivamente por técnicas difusivas. O protocolo recomendava ao menos três sessões por semana, de 4 a 6 h, fluxo de sangue acima de 200 e de dialisato acima de 500 mL/min, sódio acima de 145, temperatura de 35 °C e razão de redução de ureia acima de 65% por sessão.
- C
- Terapia contínua — hemodiálise, hemofiltração ou hemodiafiltração venovenosa, a critério do assistente —, com alvo de efluente de 20 a 25 mL/kg/h, citrato recomendado e troca de membrana a cada 72 h. O método sorteado devia ser mantido por pelo menos quatro dias consecutivos (do dia 0 ao dia 3); a partir do dia 4, a troca era permitida. Guarde esse detalhe: ele define o que o ensaio de fato responde.
- O
- Primário: evento renal adverso maior em 90 dias (MAKE90) — um composto de morte por qualquer causa, dependência de terapia de substituição renal, ou creatinina sérica mais de 25% acima do valor basal no dia 90. Desfecho composto quer dizer que basta um dos três acontecer para o paciente contar como evento; a consequência disso está na análise abaixo.
MAKE90 · desfecho primário · diferença absoluta ajustada
+6,28pontos
78,1% contra 71,6% · IC95% −1,22 a 13,79 · RR ajustado 1,09 (0,98–1,20) · P = 0,10
O intervalo contém o zero e também a margem de 7,5 pontos.
Morte em 90 dias · secundário na hierarquia
1,30
Razão de risco instantâneo · IC95% 1,04 a 1,63
63,1% contra 53,5% (Kaplan–Meier 63,3% e 53,6%)
A margem para mortalidade, pré-especificada no protocolo original, era 1,27.
Os dois componentes renais do composto
Dependência de TRS no dia 90: 2 de 96 contra 3 de 128 (2,1% e 2,3%) · diferença ajustada −0,17 ponto (−4,48 a 4,13)
Creatinina > 25% do basal: 37 de 94 contra 47 de 125 (39,4% e 37,6%) · +1,62 ponto (−12,17 a 15,41)
Praticamente vazios: o composto mede sobrevida.
Cessação acumulada da TRS no dia 28
41,2% vs 52,7%
Razão de sub-risco 0,77 (IC95% 0,61 a 0,97), modelo de Fine–Gray com a morte tratada como evento concorrente — isto é, levando em conta que quem morre não pode mais sair da diálise
Quanto do planejado foi recrutado
53%
554 de 1.000 pacientes planejados · per protocolo 512
Interrompido pelo comitê independente de monitoramento por sinal sustentado de maior mortalidade
Escala do dano, para dar ordem de grandeza
NNH de cerca de 10 — uma morte a mais a cada dez pacientes iniciados por hemodiálise intermitente em vez de método contínuo, a partir dos 9,6 pontos percentuais de diferença absoluta de mortalidade em 90 dias. Cálculo desta edição, não do artigo, e a usar com ressalva: vem de ensaio interrompido na metade, em que os próprios autores dizem que a magnitude está provavelmente superestimada.
O composto se chama renal, mas a escada só existe na mortalidade
Proporções na população de intenção de tratar do ICRAKI (260 pacientes no braço intermitente, 275 no contínuo). O desfecho primário é um composto de três coisas, e a decomposição mostra de onde vem a diferença: os dois componentes renais são praticamente idênticos — dependência de terapia de substituição renal em 2 contra 3 pacientes, e creatinina acima de 25% do basal em 39,4% contra 37,6% —, enquanto a mortalidade se separa em todos os tempos medidos, de 28 a 90 dias. Repare também nos denominadores: os componentes renais só podem ser avaliados em quem sobreviveu (96 e 128 pacientes para dependência de TRS; 94 e 125 para creatinina), porque quem morre não contribui para eles.
Dados: Gaudry S et al., N Engl J Med 2026 (Tabela 2 e Figura 2). Gráfico próprio.
O desfecho primário não decide nada; a mortalidade decide — e não muda com a análise
Estimativas em escala logarítmica. As duas primeiras linhas são o desfecho primário: o intervalo vai de 0,98 a 1,20 e contém ao mesmo tempo a ausência de diferença e a margem de não inferioridade — formalmente, inconclusivo nos dois sentidos (a superioridade da TRS contínua foi testada em seguida, na hierarquia, e não alcançou significância). As quatro linhas seguintes são a mortalidade em 90 dias, na intenção de tratar, por protocolo, ajustada por tipo de admissão e sepse, e com o centro tratado como efeito aleatório: as quatro apontam na mesma direção e nenhuma cruza o 1,0. É a consistência dessas quatro linhas que sustenta o veredito — e vale lembrar que a margem pré-especificada no protocolo original para a mortalidade era um risco relativo instantâneo de 1,27, ultrapassado pelo observado.
Dados: Gaudry S et al., N Engl J Med 2026 (Tabela 2 e Tabelas S5 a S7 do apêndice suplementar). Gráfico próprio.
A limitação que mais ameaça a leitura causal: os dois braços não entregaram a mesma dose
Duas medidas que não são desfecho, mas que mudam a interpretação. A ureia média durante a terapia de substituição renal foi de 57,7 mg/dL no braço intermitente contra 31,3 no contínuo — controle metabólico muito diferente —, e a taxa de filtração glomerular estimada na alta da UTI foi menor no braço intermitente. No mesmo sentido, o Kt/V medido por sessão foi de 0,97 na primeira e 1,10 nas seguintes (medido em 565 das 1.251 sessões), e o protocolo pedia razão de redução de ureia acima de 65% por sessão. Daí a leitura alternativa que o ensaio não consegue descartar: a lição pode ser "hemodiálise intermitente subdosada é pior", e não "hemodiálise intermitente é pior". No braço contínuo o efluente foi de 26,5 mL/kg/h por 22 h ao dia, dentro do alvo de 20 a 25.
Dados: Gaudry S et al., N Engl J Med 2026 (Tabela 2 e Tabelas S3–S4 do apêndice suplementar). Gráfico próprio.
Primeiro: o que “não foi demonstrada não inferioridade” quer dizer
Esta é a frase que carrega a conclusão do artigo, e ela não significa o que parece. A regra é uma só: a não inferioridade se demonstra quando todo o intervalo de confiança fica do lado bom da margem pré-definida — aqui, 7,5 pontos percentuais. O intervalo observado vai de −1,22 a 13,79: contém o zero e contém a margem. Nenhuma das duas hipóteses foi demonstrada, e a superioridade da terapia contínua, testada em seguida na hierarquia, também não alcançou significância. (A mecânica disso está destrinchada em Como a gente lê nº 8 — não inferioridade e a escolha da margem.)
Então de onde vem a conclusão? Da mortalidade, que é secundária na hierarquia mas tinha margem própria no protocolo original: razão de risco instantâneo de 1,27. O observado foi 1,30, com intervalo de 1,04 a 1,63 — acima da margem e sem cruzar o 1,0. É esse o achado que separa os grupos, e ele precisa ser lido com a própria régua, não como “um secundário positivo” qualquer. O que torna o argumento aceitável é a cronologia: a margem não foi escolhida depois.
E há um registro de honestidade que os próprios autores fazem no apêndice: não existe margem validada na literatura para essa comparação. Os 7,5 pontos foram definidos “pragmaticamente” e aprovados por um comitê científico que incluía uma representante de pacientes. Margem escolhida assim é escolha de valor, não medida — e quem lê tem o direito de discordar dela.
Segundo: o composto se chama renal e mede sobrevida
O desfecho primário soma três coisas de pesos muito diferentes: morrer, continuar dialítico e ter creatinina 25% acima do basal. Quando se abre o composto, como no primeiro gráfico, os dois componentes renais estão praticamente vazios: dependência de terapia de substituição renal em 2 contra 3 pacientes, e creatinina acima do limiar avaliável em apenas 94 e 125 pacientes.
Isso acontece por uma razão aritmética que vale explicitar: quem morre não contribui para os componentes renais. Com mortalidade de 53% a 63%, sobra pouca gente para medir rim. Na prática, o “desfecho renal” do ensaio é um desfecho de sobrevida com dois apêndices quase mudos — e o nome do desfecho sugere outra coisa.
Há um agravante específico, na nota ‡ da Tabela 1: a creatinina basal foi estimada, e não medida, em 153 dos 535 pacientes (28,6%) — 70 no braço intermitente e 83 no contínuo —, por fórmula MDRD assumindo filtração de 75 mL/min. Entre os sobreviventes com creatinina no dia 90, 37 de 193 (19%) estavam nessa situação. Um componente definido como “25% acima do basal” perde muito sentido quando o basal foi inventado por fórmula em quase um terço da amostra.
Os autores também lembram que creatinina subestima disfunção renal persistente no paciente crítico, porque depende de massa muscular — e a massa muscular de quem passou semanas em UTI não é a de antes.
Terceiro, e é a crítica mais séria: o braço que perdeu pode ter sido subtratado
Esta é a limitação que mais ameaça a leitura causal, e o apêndice permite quantificá-la. O Kt/V por sessão de hemodiálise foi de 0,97 na primeira sessão e 1,10 nas seguintes — medido em apenas 565 das 1.251 sessões, 45% delas. O KDIGO recomenda Kt/V semanal de 3,9 para hemodiálise intermitente na lesão renal aguda; sessões em torno de 1,0 em dias alternados (intervalo mediano de 1 a 2 dias) ficam abaixo disso, embora não seja possível calcular a dose semanal entregue com o que foi publicado.
O protocolo pedia razão de redução de ureia acima de 65% por sessão. As medianas de ureia pré e pós-sessão (68,9 caindo para 43,7 mg/dL) sugerem algo em torno de 37% — e esse número merece aviso em letra grande: é conta desta edição feita sobre medianas de médias por paciente, não sobre a redução real medida sessão a sessão, e serve apenas para indicar ordem de grandeza. O que é publicado e direto está no terceiro gráfico: ureia média durante a terapia de 57,7 contra 31,3 mg/dL. Controle metabólico muito diferente entre os braços.
A consequência é incômoda e precisa ser dita: a lição do ensaio pode ser “hemodiálise intermitente subdosada é pior”, e não “hemodiálise intermitente é pior”. O ICRAKI não testou hemodiálise intermitente bem entregue contra terapia contínua bem entregue; testou o que 38 UTIs francesas conseguiram entregar na prática. Isso tem valor de validade externa — é o que acontece de verdade — e custo de validade de construto.
Quarto: o ensaio parou na metade, e sem regra de parada
O protocolo, na versão 1.1 de janeiro de 2023, previa duas análises interinas bayesianas de mortalidade em 28 dias, com 300 e 600 pacientes, e dizia textualmente que “não há critério estatístico de interrupção do estudo”. Foram realizadas três. O comitê independente reuniu-se com 300 pacientes em abril de 2025 e pediu que a segunda fosse antecipada para 450; com 450, em julho de 2025, recomendou suspender a inclusão e aguardar o seguimento completo de 28 dias; em novembro de 2025 recomendou a interrupção definitiva, com probabilidade posterior de 97,1% de maior mortalidade em 28 dias com hemodiálise intermitente.
A leitura justa tem dois lados. Interromper por dano com limiar mais frouxo do que o exigido para declarar benefício é prática aceita e eticamente defensável, e a decisão foi de um comitê independente. Por outro lado, não havia limiar pré-definido, e 97,1% não é um número extremo — seria, num ensaio de benefício, um resultado que a maioria chamaria de sugestivo. E os próprios autores registram as consequências: a interrupção reduziu o poder, sobretudo para os componentes renais, e provavelmente superestimou a magnitude do efeito sobre mortalidade. A direção é mais confiável que o tamanho.
Há ainda uma cronologia que o leitor do artigo não vê. O esquema hierárquico completo de testes — incluindo o teste de superioridade da terapia contínua — entrou no plano de análise estatística em 24 de novembro de 2025, a mesma data da reunião que parou o ensaio; a seção de subgrupos foi completada em 9 de dezembro. Em favor dos autores: o teste acrescentado deu negativo, então a adição não os favoreceu, e a análise de mortalidade com margem de 1,27, que é a que carrega o resultado, estava no protocolo desde o início. Contra: cinco dos sete subgrupos chamados de “pré-especificados” na figura suplementar não estavam no protocolo, e a exigência de que as análises fossem cegas ao grupo foi removida na versão 4.0.
Quinto: o braço contínuo, na prática, foi “contínuo primeiro, intermitente quando estabiliza”
21,9% dos pacientes do braço intermitente trocaram de método, contra 42,5% dos do braço contínuo. Essa assimetria parece grave e, lida com o apêndice, significa o oposto do que parece.
As trocas não autorizadas, nos dias 0 a 3, foram raras e simétricas: 10 de um lado, 9 do outro. Toda a assimetria está nas trocas permitidas depois do dia 3 — 47 contra 108. E as duas têm lógicas clínicas opostas: quem saiu da terapia contínua para a intermitente estava, em 53% dos casos, sem catecolamina (dose mediana de 0,18) — é desescalada de paciente melhorando; quem saiu da intermitente para a contínua estava, em 79% dos casos, com catecolamina (0,35) — é resgate por intolerância.
A conclusão prática é importante e muda o que o ensaio autoriza: o ICRAKI responde sobre o método inicial nos três primeiros dias, não sobre a modalidade de toda a internação. O que o braço vencedor fez foi começar contínuo e descer para intermitente quando o paciente permitiu. Essa é a conduta que o ensaio apoia — e não “contínua para todos, sempre”.
Sexto: os subgrupos e o desequilíbrio basal
Não há heterogeneidade de efeito nos subgrupos. Mas há um detalhe que merece atenção, porque enfraquece a justificativa da recomendação vigente: nos pacientes sem catecolamina no sorteio, a mortalidade foi 60,0% contra 36,6%, e nos sem ventilação mecânica, 56,1% contra 28,9%. São subgrupos pequenos, com intervalos largos, e nada disso é significativo — mas a estimativa pontual do dano não é menor no paciente estável. Se o benefício da terapia contínua viesse apenas da tolerância hemodinâmica, que é o argumento da recomendação fraca do KDIGO, era aí que ele deveria desaparecer. Ressalva necessária: só balanço hídrico e dose de catecolamina eram subgrupos do protocolo; os demais foram acrescentados depois.
Sobre o basal: três variáveis estão desequilibradas contra o braço intermitente — doença renal crônica prévia 21,9% contra 15,4%, cirurgia de urgência como motivo de admissão 18,1% contra 9,5%, e catecolamina na admissão à UTI 85,4% contra 77,8%, embora no dia do sorteio os braços estivessem iguais (79,2% e 78,2%). O artigo registra apenas o motivo de admissão. O que atenua: o ajuste por tipo de admissão e sepse praticamente não mexeu na estimativa (1,26 contra 1,30); a figura suplementar mostra o mesmo efeito com e sem doença renal crônica; e com 535 pacientes e randomização central estratificada, desequilíbrios dessa ordem são compatíveis com acaso. O que não atenua: nenhuma análise de sensibilidade ajustou por doença renal crônica prévia nem por catecolamina na admissão — e a doença renal crônica pesa diretamente no componente creatinina, porque um basal mais alto é mais difícil de subir 25%.
Sobre o mecanismo, a tabela suplementar complica a história de um jeito interessante: eventos hipotensivos por paciente tiveram razão de taxas de 1,02 (0,81 a 1,28), e a pressão arterial média mínima diária foi igual (64 contra 63 mmHg). O que separa os braços é a catecolamina: dias de diálise com escalada transitória de dose com razão de chances de 1,49 (1,01 a 2,20), dose mínima diária 32% maior e máxima 38% maior no braço intermitente. Não é “mais hipotensão”: é “mais vasopressor nos dias de diálise”. Os autores classificam isso como gerador de hipótese, e a definição de hipotensão foi trocada depois do protocolo — de pressão sistólica abaixo de 80 para “precisou de intervenção” — porque as pressões não estavam disponíveis de forma sistemática.
Sétimo: o editorial do NEJM é mais contido que o ensaio — e isso importa
Quem assina é Paul Palevsky, que conduziu o ATN e já escreveu com Gaudry, primeiro autor do ICRAKI, uma revisão do próprio NEJM sobre o tema — não é, portanto, leitura de adversário. Ele dá primeiro o número que faltava para dimensionar a novidade: até agora, uma metanálise de sete ensaios comparando as duas modalidades dava risco relativo de 1,00 para sobrevida, com intervalo de 0,92 a 1,09. O corpo de evidência anterior não era só “neutro”: era preciso e neutro. É contra esse pano de fundo que o ICRAKI surpreende — e também por isso que ele exige confirmação.
Palevsky oferece uma explicação para a mortalidade alta que não aparece no artigo e vale guardar: a mortalidade geral do ICRAKI foi maior que a dos ensaios anteriores e corresponde à dos braços de início tardio do AKIKI e do STARRT-AKI. Em outras palavras, seguir os critérios modernos — que mandam esperar antes de dialisar — muda a coorte que chega ao sorteio: entram pacientes mais tarde e mais graves. Isso explica de uma só vez por que o basal é pior que o da literatura antiga e por que o resultado diverge dela, e é um aviso para quem for comparar este ensaio com ATN ou RENAL.
Sobre o que o ensaio autoriza, ele é explícito em duas frases. A primeira: “por causa da interrupção precoce, o ensaio ficou subdimensionado, o que limita a interpretação do desfecho primário” — e ele acrescenta que a própria diferença de mortalidade atrapalha avaliar o efeito sobre recuperação renal, que é o problema do composto dito de outro jeito. A segunda fecha o editorial: “pesquisa adicional será necessária para confirmar os resultados do ICRAKI”. É a mesma conclusão a que esta análise chega por outro caminho: direção confiável, magnitude não.
E o título dele é uma provocação que merece resposta: “qual é a pergunta?”. A escolha de modalidade na UTI nunca é aleatória — em alguns serviços tudo começa contínuo e passa a intermitente quando o paciente vai sair; em outros, a contínua fica reservada ao mais instável. “Ao comparar essas estratégias, a diferença não depende do método inicial”, escreve ele, e a pergunta real seria como integrar as modalidades disponíveis — incluindo a intermitente prolongada e a diálise peritoneal, que o ensaio nem testou. Repare que isso converge com o quinto bloco acima: o braço que venceu fez, na prática, “contínua primeiro, intermitente quando estabiliza”. Dois leitores independentes chegaram à mesma conclusão por caminhos diferentes, e é ela que deve sair daqui para o leito.
E no Brasil?
Aqui a pergunta tem peso financeiro e logístico que ela não tem na França. A terapia contínua exige máquina dedicada, filtros, soluções, anticoagulação e equipe treinada, e não está disponível em muitas UTIs brasileiras; a hemodiálise intermitente, por nefrologia de plantão ou serviço terceirizado, é o padrão em boa parte do país. Os próprios autores escrevem que os achados podem ser menos generalizáveis a cenários de poucos recursos.
O que o estudo autoriza, e não é pouco: deixar de tratar as duas modalidades como intercambiáveis no paciente grave com indicação estabelecida de diálise. E dá um argumento novo, frágil em magnitude mas consistente em direção, para priorizar o método contínuo onde ele existe, nos primeiros dias, com desescalada para intermitente quando o paciente estabiliza — que é literalmente o que o braço vencedor fez.
O que o estudo não autoriza: trocar tudo por contínua, nem tratar o NNH de cerca de 10 como promessa. Ensaio interrompido na metade, sem limiar de parada pré-definido, com os próprios autores dizendo que a magnitude está provavelmente superestimada.
E a leitura alternativa, que vale deixar explícita para quem só tem intermitente: se a hemodiálise do ensaio foi subdosada, o recado pode ser “se for intermitente, que seja bem entregue” — sessões mais longas ou mais frequentes, dose medida, razão de redução de ureia conferida. O ICRAKI não testou isso. Mas é a pergunta que sobra, e é a pergunta que mais interessa a quem lê isto num hospital público.
Dois estudos acessórios pré-especificados ainda não saíram e vão interessar: uma avaliação econômica (custo por MAKE90 evitado) e um estudo de pegada ambiental, com CO₂ equivalente e consumo de água por modalidade. Vão para o Radar quando forem publicados.
É a primeira vez que um ensaio randomizado mostra diferença de mortalidade entre as duas modalidades, e isso precisa ser dito antes de qualquer ressalva: o corpo de evidência anterior era consistentemente neutro. Mas o que o ICRAKI sustenta não é exatamente a recomendação vigente. O KDIGO sugere o método contínuo pela tolerância hemodinâmica do paciente instável; aqui o dano não é menor em quem estava estável — sem catecolamina, 60,0% contra 36,6%; sem ventilação mecânica, 56,1% contra 28,9%. O ensaio amplia a recomendação e por outro motivo, em vez de confirmá-la. O que o resultado permite afirmar é a direção: no paciente grave com indicação estabelecida de diálise, onde houver método contínuo, não começar por intermitente. O que ele não permite validar é o tamanho — e é por isso que o selo não é verde. O ensaio parou com 53% da amostra, sem regra de parada pré-definida, e os próprios autores escrevem que a magnitude está provavelmente superestimada; o desfecho primário ficou inconclusivo nos dois sentidos; a hemodiálise foi entregue abaixo do alvo do protocolo, de modo que a lição pode ser sobre a dose e não sobre o método; e o braço intermitente partiu um pouco mais doente, sem ajuste para isso. Direção confiável, magnitude não.